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André Pomponet

São João se aproxima sob as labaredas da política

26/05/2017

Aos poucos o clima junino se insinua. O espocar de fogos se tornou mais frequente, sobretudo no intranquilo silêncio urbano, nas noites que esfriam. Na semana que sucedeu a Micareta, já se ouve o ritmo contagiante de forrós antigos aqui ou ali. E produtos típicos das celebrações juninas, como o milho e o amendoim, já podem ser encontrados com relativa fartura. As chuvas, aguardadas com muita ansiedade, finalmente começaram a cair, umedecendo a terra e encobrindo o horizonte, esporadicamente, com uma suave cortina d’água.

O São João é a festa mais valorizada pelos nordestinos. Supera o Natal, com sua inspiração nórdica e sua fraternidade de mercado, mais popular em outras regiões brasileiras. No intervalo junino de trinta dias condensa-se muito do que se construiu de cultura regional, com suas músicas, suas danças, sua culinária, sua devoção aos santos católicos, sua celebração da fartura que se extrai da terra. Lembra uma trégua passageira nas agruras seculares que afligem a região.

As chuvas recentes semearam a esperança de que a seca implacável dos últimos anos está, finalmente, começando a arrefecer. No campo, na extensa zona rural feirense, o trabalhador se dedica com vigor a cavoucar a terra úmida, preparando-a para o plantio, às vezes já apreciando as plantas tenras que vão crescendo em manhãs e tardes acinzentadas.

No comércio, já começam a aparecer aquelas bandeirolas multicoloridas, típicas do período, enfeitando lojas e vitrines, despertando a atenção do transeunte. As promoções se fazem tentadoras para quem deseja dançar forró trajando roupa nova, estreando sapato. E os anúncios daquelas festas pagas pontuam os out doors da região.

Crise

Porém, tem sido difícil para o feirense – e o brasileiro – ir tentando tocar a vida com ares de normalidade. A crise encurtou o dinheiro e as despesas ajustam-se aos novos orçamentos. E ajustam-se também às expectativas em relação ao futuro, que vão se tornando mais sombrias a cada dia que passa. Basta ligar a tevê para sentir.

Nem todo comentam, mas muitos acompanham o noticiário apreensivos: sabem que o sururu político que convulsiona Brasília tem potencial para seguir produzindo danos na vida do cidadão comum. Afinal, promessas e sorrisos se sucedem, mas o comerciário, o industriário e o agricultor seguem perdendo renda e trabalho, consumindo menos, atravessando o período junino menos entusiasmado do que antes. E o comércio e os serviços sentem o baque, vendem pouco, continuam desempregando.

Junho vai começar com a crise ingressando numa etapa inédita até aqui: flagrado em diálogos nada edificantes, Michel Temer (PMDB-SP), o mandatário de Tietê, tenta aferrar-se ao cargo feito caramujo à concha, mobilizando a infantaria recrutada no balcão; seus adversários enxergam nele, já, feições de cadáver político, embora se mova ainda, feito marionete; pedidos de impeachment, julgamento de chapa no Tribunal Superior Eleitoral, tudo isso integra o circo de horrores, que ninguém sabe como vai findar.

Até o cidadão avesso à política, aquele que antes desejava apenas provar o licor, o milho, o amendoim e ouvir, sossegado, seu forró, acompanha o noticiário, reflete e opina em grupos pelas esquinas, nas portas dos botequins dos bairros, no burburinho do centro da cidade. E a opinião, pelo jeito quase unânime, é que o Michel Temer deve sair sapecado dessa fogueira política...

André Pomponet