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Mais momentos e menos compartilhamentos, por favor!

Contos e Crônicas - 16/03/2017
Mais momentos e menos compartilhamentos, por favor! Josevaldo Campos é jornalista de formação e profissão, inclinado à publicidade e compositor nas horas vagas.
Qual a razão daqueles seus cinco mil amigos adicionados no Facebook ou daqueles outros milhares que te seguem em tantos outros aplicativos? Com quantos,  verdadeiramente,  tu poderás contar na hora em que precisar?
Eu tenho pensado muito sobre isso (e não sou a primeira pessoa do mundo),  e sei que ainda estou muito distante de me livrar dessa prisão social. Tem sido extremamente desafiador não postar, não compartilhar, apenas viver. 
Devo dizer que a razão para o surgimento desse princípio importantíssimo de mudança tem nome e rima. Chama-se Trem Bala, uma canção linda da cantora e compositora Ana Vilela, feita sob medida para te acordar e te dar a oportunidade de mudar a você e a sua vida enquanto há tempo. 
Veja como são as coisas. Essa composição me chamou a atenção para outro fato extremamente importante e que vinha passando despercebido por mim (e deve acontecer ou aconteceu com você também): conhecer meus pais. Isso mesmo. Conhecer profundamente, com riqueza de detalhes. Depois de 30 anos de convivência,  em um final de semana com menos cliques, curtidas e postagens, eu descobri que não sei muito sobre eles.
Após esta constatação, ou descoberta, não sei bem, tenho não só pensado mais nos meus velhos, como também feito mais esforços para ficar perto deles, porque “a vida é trem bala, parceiro, e a gente é só passageiro prestes a partir”. E antes que você pense que estou a dizer isso pensando única e exclusivamente numa possível ausência de meus pais, lhe digo que não. Observe que a letra da música diz “a gente”, ou seja, todos nós.
Mais recentemente, tomei uma decisão, no mínimo, transformadora: não postar, apenas viver. Aproveitar os bons momentos sem se preocupar com a foto. Estou me sentindo bem melhor. Essa mudança de comportamento tem mudado a minha vida e pode mudar a sua também. Acredite!
Francamente, eu não acredito que os seus cinco mil amigos e seus outros milhares de seguidores estejam muito interessados em sua vida. Verdadeiramente não!  De agora em diante,  para mim, os likes não são mais suficientes. Clicar é muito fácil. Uma amizade verdadeira requer muito mais! Vá em busca e procure saber se “em algum lugar alguém zela por ti".
Eu gostava quando alguém comentava uma postagem, uma foto minha. Eu imaginava que o fato de a pessoa ter se dado ao trabalho de parar para pensar e escrever (pelo menos esse é o rito normal da escrita) demonstrava um comprometimento maior com a "nossa amizade". Era um fio de esperança, uma luz no fim do túnel.
Cada vez mais tenho percebido a alienação que estas redes sociais causam na gente e decidi restringi-las ao uso profissional e divulgação do meu trabalho pessoal. Aliás, essa é a razão única pela qual eu não realizarei exclusões em massa. Eu tenho fé que vou conseguir seguir em frente!
Não estou querendo dizer com isso que eu não vou mais fotografar, não, absolutamente, o registro é importante até mesmo para preservar nossa memória natural, que não anda mais lá essas coisas nem tem capacidade suficiente de armazenar todos os acontecimentos do dia a dia. Ademais, a foto imortaliza materialmente um momento importante de nossas vidas. Mas compartilhar com meus milhares de amigos? Não. 
Eu não tenho cinco mil amigos online. Longe disso. E ainda perdi alguns dos poucos e verdadeiros que tinha por perto. As redes sociais foram nos deixando cada vez menos sociais, menos presente até que conseguiram nos enclausurar num distanciamento sem volta aparente. 
Dizem que os verdadeiros amigos nunca se vão. Eu já não tenho tanta certeza depois que as redes sociais ganharam força astronômica na vida das pessoas e mudou sobremaneira a forma delas se relacionarem entre si. Muitos deles, nossos amigos da vida real, simplesmente desaprenderam a interagir cara a cara, tête-à-tête. Foi quando eu decidi que esse tipo de amizade, se assim podemos chamá-la, não servia mais para mim. Além disso,  uma amizade sustentada pela conveniência é tão perigosa e destrutível quanto as armadilhas preparadas pelo seu pior inimigo. Pense nisso! 
Eu decidi viver ao invés de me preocupar em compartilhar. E você?
Josevaldo Campos
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