Debatendo a Economia

André Pomponet *          

 

HDPA: patrimônio da Feira

Uma das mais importantes instituições da Feira de Santana é sem dúvida o Hospital Dom Pedro de Alcântara (HDPA). Em crise há muitos anos, com ocorrência de atrasos de salários de seus servidores, suspendendo eventualmente os serviços que presta à população mais carente do município, a instituição ultimamente foi posta na linha de fogo da política partidária e intermináveis e inúteis debates buscam localizar o algoz do HDPA nas hostes políticas adversárias.

É uma pena. Até 1865, Feira de Santana não dispunha de um hospital. Quando ocorriam epidemias na cidade a Câmara – que desempenhava as funções do Executivo – alugava uma casa nos arredores, onde eram alojados os doentes que, provavelmente, iam morrendo aos poucos. Assim, a versão feirense dos “lazaretos” era itinerante.

A iniciativa de construir um hospital partiu da Santa Casa de Misericórdia, uma organização de caridade que até então prestava alguns serviços de saúde aos associados e promovia enterros. Depois da tentativa frustrada de construir um grande hospital, em 1884 fez-se a aquisição do imóvel de dois andares que ganhou o nome do Imperador Dom Pedro II. Até o século XX, foi o único hospital em funcionamento no município.

Ao contrário do que se possa imaginar, não foram poucos os desafios enfrentados pela Saúde Pública à época. Sucediam-se epidemias de varíola, malária, febre amarela, tifo e paratifo. O historiador Rollie Poppino contabiliza sete epidemias de varíola entre 1860 e 1920.

Outros males

Antes, fora pior. Em 1855 ocorreu a última epidemia de cólera de que se tem notícia e a peste bubônica era recorrente na zona rural, embora não ganhasse dimensões de epidemia a partir de meados do século XIX. Na década de 1920, houve uma epidemia de influenza, a gripe que se originou na Espanha durante a Primeira Guerra Mundial e se espalhou por todo o mundo ocidental.

Naquela Feira de Santana, tal como na de hoje, as doenças se disseminavam porque a população não podia pagar pelos serviços de médicos particulares e a precária Saúde Pública não alcançava a populosa zona rural. Restavam as ervas medicinais, os curandeiros e a ação caritativa do Hospital Dom Pedro de Alcântara.

Na década de 1930, a população feirense superava os cem mil habitantes, considerando-se os residentes na sede, na zona rural, povoados e distritos (incluindo os que posteriormente se emanciparam, como Angüera, Santa Bárbara e Tanquinho). O HDPA, então, dispunha de 39 leitos.

Progressos

Embora continuasse contando apenas com o Hospital Dom Pedro de Alcântara, o município ganhou a partir da década de 1940 postos médicos, inclusive na zona rural, o que aos poucos foi amenizando o problema agravado pela ausência de serviços de abastecimento de água encanada e tratada e saneamento básico.

   Hoje clínicas e hospitais particulares espalham-se pela Getúlio Vargas e adjacências, contemplando as necessidades de cura de bolsos de portes variados. No entanto, milhares de feirenses ainda permanecem dependentes dos serviços da rede pública, hoje acrescida do Hospital Clériston Andrade e dos postos de saúde municipais. Lamentavelmente, a alardeada qualidade no atendimento é ainda elemento de retórica.

É triste ver o HDPA manobrado como massa informe para assumir o aspecto político mais conveniente. Antes de servir às querelas políticas, à incessante busca pela capitalização política, o hospital constitui um patrimônio da Feira de Santana. Deve, portanto, ser tratado com o mesmo respeito que merece a população feirense. Os políticos e suas rixas, estes serão cobertos pela fina camada da poeira do tempo.

Oportunidades da cachaça em Feira

 A aguardente de cana – ou cachaça – é uma bebida alcoólica quase tão antiga quanto o Brasil: surgiu lá pelos idos de 1533 ou 1534, num engenho da capitania de Martim Afonso de Souza, em São Vicente, hoje São Paulo. Mas foi na Bahia que a bebida fincou raízes, afirmou sua brasilidade bastarda e, ainda hoje, é a segunda bebida alcoólica mais consumida do país, perdendo apenas para a cerveja. Anualmente, bebe-se mais de um bilhão de litros da “marvada”.

            Mesmo com mais de 120 municípios baianos plantando cana-de-açúcar, perdemos a hegemonia para Minas Gerais, que produz cachaça de alambique em maior quantidade e melhor qualidade que nós, baianos. Em pouco mais de 20 anos, consolidaram o respeitável rótulo da “Cachaça de Minas”, cujos preços superam os de renomadas marcas de uísque, por sua inquestionável qualidade.

            Aqui pela Bahia marchamos a passos lentos, mesmo com o imenso potencial da bebida, tanto para consumo interno, quanto para exportação, já que existem mercados promissores no exterior, inclusive o de países ricos. Falta-nos, todavia, o mesmo profissionalismo e organização de outras cadeias produtivas.

            Iniciativas como a instituição do Arranjo Produtivo Local (APL) da Cana-de-Açúcar pelo Estado e a criação, em 2002, da Associação Baiana dos Produtores de Cachaça de Qualidade (ABCQ) são válidas, mas exigem muitos outros passos além. A exemplo de outros circuitos produtivos, Feira de Santana pode ser um dos municípios beneficiados pela produção de cachaça de qualidade.  

            Situação Atual  

            Hoje, na Bahia, somente 1% dos produtores atuam através de empresas formalizadas. Geram cerca de 600 empregos diretos com 24 marcas registradas. É muito pouco, quando se considera que existem sete mil estabelecimentos e 35 mil trabalhadores diretos atuantes nesse arranjo, conforme dados da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti).

            Esses produtores têm acesso a tecnologia, informações, atingem mercados urbanos maiores e são melhor remunerados. Têm também acesso a crédito e articulando-se em rede, fortalecem o setor.

            O mapeamento da Secti indica que esses produtores estão localizados na Chapada Diamantina, Recôncavo Sul e Extremo Sul da Bahia. Vê-se, portanto, que há um imenso potencial a ser explorado, mas que de antemão exige esforços articulados e mobilização dos produtores e do Estado.  

            Triste Realidade  

            Feira de Santana possui localização privilegiada também em relação a essa atividade: fica próxima a municípios que são grandes plantadores da matéria-prima (como Amélia Rodrigues), é o maior entreposto comercial da região, portanto candidato natural ao escoamento da produção e, inclusive, dispõe de um curso de Engenharia de Alimentos na Uefs, que pode oferecer profissionais capacitados para o desenvolvimento e qualificação do produto.

            À primeira vista, é um cenário tentador, mas que infelizmente precisa ser quase que integralmente construído. Por aqui proliferam os alambiques improvisados, que empregam equipamentos obsoletos e utilizam mão-de-obra doméstica e sem qualificação. O produto é facilmente adulterado e o processo de distribuição é amador, alcançando apenas uma clientela menos exigente e com baixo poder aquisitivo, através de intermediários.

            O estabelecimento de uma cadeia adensada no setor, porém, exige o esforço coordenado dos municípios, já que não existe auto-suficiência em matéria-prima, mão-de-obra, meios de produção, mercados e logística de escoamento. Produzir cachaça de qualidade, portanto, envolve uma sinergia cuja palavra-chave é cooperação.

 

Os “farmacêuticos” populares  

As feiras-livres e os espaços utilizados para o mercadejar de produtos diversos concentram uma rica fauna de trabalhadores informais. Aos que se estabelecem de mala e cuia pelas vias públicas, apostando numa pequena guia – ou capital – para assegurar o sustento da família e repor o estoque se dá o nome popular de camelô. A baixa escolaridade da população, as reestruturações produtivas que reduzem postos de trabalho e o decepcionante crescimento econômico das últimas décadas colaboraram para que mais e mais ambulantes ocupassem praças, ruas e avenidas.

            Paralelamente, o vertiginoso crescimento econômico da China nos últimos 30 anos provocou uma enxurrada de produtos baratos nos países pobres, que satisfazem a demanda das classes sociais mais baixas. Hoje, boa parte do que se vende por ruas e avenidas provêm da China.

            No entanto, a informalidade das feiras-livres antecedeu em décadas (talvez séculos) o tsunami mercantil chinês. Aqui sempre se mercadejou com barraquinha ou lona de plástico estendida no chão. É a sabedoria popular equilibrando oferta e demanda, como diriam os economistas ortodoxos que começam a ficar fora de moda.

            Um exemplo clássico é o dos vendedores de ervas “milagrosas”, que curam quaisquer doenças ou estados de espírito. Costumavam ficar na Praça Fróes da Mota, quando o movimento ali era maior. Depois migraram para as imediações do SAC, para a Praça do Tropeiro e, eventualmente, dão as caras nas feiras-livres dos bairros aos domingos.

             Ervas Medicinais  

            Uma voz grave anuncia ao megafone as virtudes das ervas, folhas e cascas que se amontoam em lonas surradas. O som, estridente, vai prendendo alguns passantes. “Alumã cura as dores em geral”, “mastruz é para as vermes e gripe”, o “chá de quebra-pedra previne cálculos renais e problemas do fígado” e a erva-cidreira, tão comum nos quintais de antigamente, é um “excelente calmante, controla a pressão alta e combate o mal-estar”.

            Eventualmente, uma cobra enrodilhada numa caixa de madeira acompanha o vendedor, generoso em conselhos com aqueles que temem perder a mulher por falta de forças. Vez ou outra ele anuncia prolongadas viagens ao interior da Amazônia e que renderam os produtos que são oferecidos, a preços módicos, aos clientes estáticos.

            Muitos, talvez movidos pelo encanto que cerca seus produtos, desaparecem com o sol a pino. Mas reaparecem nos dias seguintes, desafiando as farmácias que vendem barato, aceitam cartão de crédito e parcelam os medicamentos em até seis vezes.  

            Resistência  

            No tempo dos médicos especializados, dos aparelhos modernos e dos consultórios suntuosos, parece surpreendente a resistência desses ambulantes e de suas raízes. Eles, porém, constituem relíquias de uma Feira de Santana de cinqüenta anos atrás, quando o pobre se curava recorrendo às folhas, cascas e raízes que a caatinga preservava.

            O historiador Rollie Poppino registra que, em 1950, havia somente um médico municipal em Feira de Santana. Como não atendia nos distritos e na zona rural, onde residia a maior parte da população, a solução era recorrer aos curandeiros e aos remédios caseiros. O curandeirismo, a propósito, era proibido pela lei e condenado pela Igreja Católica, em fins do século XIX.

            Passados tantos anos, o capitalismo tragou os curandeiros, mas os vendedores de ervas medicinais resistem, como relíquias de um tempo distante. Em 1950, tuberculose, pneumonia e parasitas intestinais constituíam problemas crônicos de saúde no município. Varíola, malária, febre amarela, tifo e paratifo também contribuíam para multiplicar as cruzes no Cemitério Piedade. Naquele tempo, só tinha acesso a atendimento médico quem podia pagar...

 

A Transposição e mais uma seca  

Apesar de algumas nuvens acinzentadas cobrirem o céu muito azul dos últimos dias, já se fala novamente na Bahia nos efeitos da estiagem sobre a agricultura e a pecuária. Anunciam-se prejuízos com os meses sem chuva e repetem-se, mais uma vez, as cenas de pessoas marchando por quilômetros em busca de água nos reservatórios que vão se esvaziando. A situação é mais crítica em alguns outros estados, mas a Bahia e Feira de Santana também já sofrem os impactos. Diversos municípios decretaram situação de emergência.

O semi-árido nordestino é uma região suscetível às estiagens prolongadas. A precipitação pluviométrica anual, por exemplo, não supera em média os 800mm anuais. O problema, contudo, é que essas chuvas não caem com regularidade especial ou temporal. Prevê-las ainda constitui um desafio para a ciência.

Longos anos de observações indicam que, normalmente, o período chuvoso na região vai de fevereiro a maio. Nos demais meses, as chuvas são mais escassas. Se não chove nos meses previstos, é comum que ocorram estiagens, que secam as aguadas e expõem a população mais dependente da agricultura a imensas dificuldades.

Ainda no século XVI os viajantes estrangeiros notaram o fenômeno, com registros em Pernambuco e no Rio Grande do Norte. Com a colonização e a ocupação mais intensa do território brasileiro, tornaram-se freqüentes os relatos sobre as estiagens que dizimavam animais, lavouras e obrigavam inúmeras tribos indígenas ao nomadismo.

As secas no Ceará  

Em número de mortos, a seca mais terrível que assolou o Nordeste aconteceu entre os anos de 1877-1879. Estima-se que entre 500 mil e 600 mil nordestinos pereceram, 300 mil deles só no Ceará, o estado mais castigado pelo fenômeno. Á época, muitos parlamentares na Corte, no Rio de Janeiro, se opuseram ao envio de recursos para combater a fome na região.

            As dificuldades de comunicação levaram muitos deputados a questionar se de fato existia uma seca no Nordeste e se o envio de donativos, na verdade, não representava um incentivo ao ócio e à vagabundagem dos flagelados que, desesperados, ocuparam Fortaleza e mesmo assim continuaram morrendo aos milhares, de fome e de epidemias.

            Mais de um século depois, nova calamidade atingiu o Ceará e o Nordeste, entre 1979 e 1983. Mesmo com a Ditadura Militar os brasileiros ficaram sabendo, pelas rádios, tevês e jornais, que seus compatriotas morriam de fome por causa da seca e da omissão dos governantes.  

Atualidade  

Hoje já não morrem milhares de brasileiros por causa das estiagens no semi-árido. Tampouco se espalham epidemias que dizimam populações fragilizadas pela fome. Em compensação, o povo ainda permanece na expectativa da aplicação de políticas estruturantes que amenizem os efeitos das secas, sem o viés assistencialista de tantos anos. Isso ainda não se vislumbra com clareza no horizonte.

Em 1877 se debatia a necessidade de produzir um desvio no Rio São Francisco, interligando-o ao Rio Jaguaribe, no Ceará, o que asseguraria o suprimento de água e atenuaria a situação difícil da população. Era o que comentavam os parlamentares indignados com o ócio dos cearenses.

Passados tantos anos, a idéia aparentemente esquecida voltou à tona com o presidente Fernando Henrique Cardoso. Politicamente posto em xeque, abandonou-a. Depois veio Lula, que acomodou os interesses das grandes empreiteiras e dos grandes latifundiários e abraçou a idéia. Parte do Rio São Francisco vai ser desviada, para contemplar os projetos do agronegócio.

Nos próximos anos, as cenas dos nordestinos sedentos vão voltar às cenas da tevê. Com ou sem transposição do São Francisco, o que não passa de mais um elefante branco no rol das grandes obras fracassadas de combate a seca...  

Informação e tomada de decisões na crise  

Jornais, revistas, emissoras de rádio e tevê e a Internet anunciam em tempo real as notícias da crise econômica que abala os mercados financeiros e que já vem sendo considerada como a mais devastadora desde a Crise na Bolsa de Valores de Nova Iorque, em 1929. Essa crise foi tão severa que os Estados Unidos – e os demais países, incluindo o Brasil – sofreram seus efeitos por boa parte da década de 1930. Ainda não se tem noção dos impactos da situação atual, mesmo com os comentários tranqüilizadores das autoridades políticas e econômicas.

O certo é que a crise atual circula pelos mais variados meios de comunicação e tem sido objeto de comentários muito diversificados, às vezes contraditórios. Uns prenunciam o apocalipse; outros desdenham o problema, considerando-o passageiro e apostam nas medidas anunciadas pelos governos. O certo é que o desenvolvimento tecnológico permite ao cidadão comum obter informações, formar seus juízos e tomar decisões.

Isso não constituía uma realidade em 1929. Circulavam jornais, existiam telégrafos e telefones, mas as notícias arrastavam-se e alcançavam grupos restritos, normalmente diretamente envolvidos com as finanças. Alguns fatos tornavam-se de conhecimento público após meses.

O rádio e suas ondas foi o primeiro veículo a tornar mais ágil a comunicação. Só que a popularização ocorreu já pelos anos 1940, quando a crise e os conflitos colonialistas das grandes potências mundiais descambaram na Segunda Guerra Mundial.  

Comunicação em Feira  

Ao contrário de hoje, a Crise de 1929 demorou para chegar ao conhecimento dos feirenses. Somente quando os efeitos se fizeram sentir é que as informações difusas ganharam consistência e o cidadão compreendeu a implacável cadeia que une os fenômenos econômicos.

Na cidade, a comunicação se limitava a um telégrafo na sede e outros dois, nos distritos de Bonfim de Feira e Tanquinho. Telefone era coisa para pouco mais de 30 empresas e 12 residências particulares. Um único aparelho público permanecia disponível para o restante da população.

As estradas também não ajudavam a propagar informações: havia a Feira-Salvador (144 km apenas carroçáveis) e as demais ligavam a Princesa do Sertão a localidades remotas como Candeal, Irará e Riachão do Jacuípe. Assim, as informações circulavam com a velocidade dos carros de boi que se moviam rangendo pelas estradas silenciosas.

Vantagens

Apesar do pânico e do tom espetaculoso que cerca a cobertura da crise, o fato é que o desenvolvimento dos meios de comunicação contribui para amortecer os efeitos dessas turbulências. Precavidos, empresários e consumidores ajustam suas expectativas aos cenários que as informações coletadas desenham. As incertezas balizam as apostas e a aversão aos riscos, ajudando a minimizar prejuízos.

Embora o cassino se dê no âmbito das finanças e de suas gigantescas corporações, os efeitos (e os prejuízos) se irradiam, afetando quem pretende trocar de carro, comprar apartamento, reforçar o estoque natalino ou, simplesmente, comprar uma televisão em várias prestações.

Informação é insumo para a tomada de decisões na economia. Quando os feirenses e os nordestinos foram atingidos na década de 1930, com seus poucos telefones e seus carros de boi, os efeitos poderiam ter sido reduzidos se tivessem noção do que ocorria na distante Wall Street.

 

Um Natal mais magro   

Parece que o Natal este ano vai ser bem menos farto do que se esperava há apenas alguns meses. Tudo culpa da crise financeira internacional, que lançou o dólar no patamar de R$ 2,20, quase cinqüenta centavos de real acima da cotação em torno da qual a moeda norte-americana oscilava antes das atuais turbulências. Mas a elevação do dólar é apenas o efeito colateral da crise, muito mais profunda, que atinge a economia mundial. Fala-se em recessão em 2009 (crescimento econômico negativo) e já se temem os desdobramentos como o desemprego e a elevação da pobreza.

As crises econômicas que atingiram o mundo nas últimas décadas sempre se originaram em países periféricos ou emergentes (como os chamados Tigres Asiáticos há dez anos) e o amargo remédio da recessão foi digerido por quem não tinha grande cacife na arquitetura financeira mundial.

A crise dos dias atuais, porém, é diferente. Ela se originou na principal potência econômica mundial, os Estados Unidos e vai produzir seqüelas em muitos países, graças à maior integração da economia global e à conseqüente dependência do planeta em relação ao mercado norte-americano.

Um efeito sobre o Brasil caminha para a constatação unânime: a redução no ritmo de crescimento econômico, gerando menos riqueza, menos emprego e freando a empolgação dos que imaginavam que, finalmente, o país deslancharia rumo a um ritmo de crescimento sustentável na casa dos 5% anuais.  

Impactos  

Confirmando-se os prognósticos, teremos um Natal menos farto que o que se esperava. Ms não apenas o Natal. Os próximos meses devem ser de expectativa entre os agentes econômicos, cujas posturas tenderão a ser conservadoras. Os bancos, que anunciam alta nos juros, já estão se antecipando.

Mas não apenas os que transitam no mundo das finanças vão apertar os cintos, como popularmente se diz. Os automóveis, tão acessíveis há pouco, estão sendo quitados com prazos menores, juros maiores e prestações mais elevadas. Mas não só os automóveis: os eletrodomésticos e os demais bens quitáveis em várias parcelas trarão, em breve, a armadilha dos juros embutida.

Até as tentadoras viagens de férias ao exterior, sonho de consumo da classe média, tende ao adiamento, em muitos casos. Com o dólar em alta, a alternativa é visitar os coqueiros da maltratada orla de Salvador. Ou as ruas estreitas de Olinda ou do Recife ou ainda as belas praias do litoral cearense, para citar só o Nordeste.  

Feirenses  

A Feira de Santana, por sua condição de entreposto comercial, tende a refletir esses humores dos agentes econômicos. As multidões pelas Sales Barbosa, Senhor dos Passos, Marechal Deodoro e Feiraguai talvez não sejam tão compactas no Natal. Torçamos que sim, que a recessão seja só uma ameaça fugidia. Mas não tomemos tão ao pé da letra a futurologia das autoridades econômicas que atestam a “blindagem” atual do Brasil contra crises.

Afinal, uma piada corriqueira diz que, como oráculos, os economistas são excelentes intérpretes do passado. Quando o presente se torna nebuloso, então, o exercício da futurologia (principalmente a futurologia do longo prazo) torna-se, quase sempre, ingenuidade, charlatanismo ou ignorância.

Farto ou não, o certo é que o período natalino é propício à reflexão, ao planejamento da vida pessoal, às avaliações do que se acertou e do que se errou. É tempo de confraternização e de espírito mais leve. Mesmo que o corpo também esteja mais leve, com o arrocho prometido para 2009...

           

  Oportunidades para a indústria de confecções  

Na economia, as opções de desenvolvimento costumam ser limitadas e as vocações naturais de determinadas regiões ou municípios não podem ser desprezadas ou sofrer negligência do Estado. Quando se insiste com estratégias equivocadas ou cujos resultados não são os melhores do ponto de vista da alocação de recursos, o que se obtém é a perpetuação da pobreza e a inibição de oportunidades de desenvolvimento.

            Feira de Santana dispõe de um conjunto de atividades que, se devidamente exploradas e gerenciadas com competência, poderiam contribuir para o desenvolvimento do município, elevando a qualidade de vida da população. Nesse rol, temos aí a logística e os serviços nela envolvidos, a própria pecuária e a agricultura que, caso fossem objeto de uma política consistente de agregação de valor, gerariam riquezas justamente para a população mais necessitada.

            Nas atividades citadas, porém, ainda há muito por fazer. Qualificar mão-de-obra, consolidar mercados, investir em tecnologia e desenvolver métodos de gestão eficientes. Mas já há também atividades que, embora constituam exemplos locais de sucesso, ainda não são alvos da devida atenção dos governantes.

            É o caso da indústria de confecções na Feira de Santana. Distribuído em dezenas (talvez centenas) de médias e pequenas empresas formais ou informais, o setor tem amplo potencial de geração de emprego e renda e tem capilaridade em dezenas de municípios da região, oferecendo produtos com qualidade e preços acessíveis.  

            Organização  

            Há alguns anos, inclusive, o governo estadual constituiu um arranjo produto local (APL) para auxiliar o setor, mobilizando empresários de Salvador e de Feira de Santana. Embora se reconheça o mérito da iniciativa, as ações ainda estão muito aquém do potencial do mercado para o segmento.

            Uma das razões é que, em muitos casos, sem nenhum apoio governamental, pequenos e médios empresários lançaram-se na aventura da indústria de confecções, digladiando-se com segmentos estruturados no Sudeste e em outras regiões do país e afirmando-se, aos poucos, como alternativa a empresas muito mais tradicionais e altamente competitivas.

            Esse sucesso relativo, todavia, poderia ser muito maior caso houvesse articulação em rede, acesso a informações, crédito facilitado e maiores atrativos para a formalização de empresas. Intensiva em mão-de-obra, a indústria de confecções tem potencial para ser um dos sustentáculos da geração de emprego e renda no município.

             China  

            Se essas iniciativas tivessem sido adotadas há vários anos, dificuldades com as quais o setor se depara atualmente poderiam ser enfrentadas de maneira mais eficaz. É o caso da concorrência de produtos chineses (também no setor de confecções) beneficiada pelo custo da mão-de-obra naquele país e que desembarcam no Brasil com preços atrativos para a população com menor poder aquisitivo.

            No entanto, conservamos vantagens competitivas e comparativas que, se bem aproveitadas, podem contribuir para a consolidação e a expansão do setor, mesmo com o acirramento da concorrência chinesa. O aproveitamento, porém, depende da construção de arranjos, de esforços para ações cooperativas e da associação dos pequenos empreendedores como vetor de tomada de decisões. Uma fórmula antiga e muitas vezes reafirmada, talvez pense o leitor.

            Com razão. Mas, em contextos como esse, os resultados não costumam vir com celeridade, nem a construção de estratégias se faz sem conflitos e interesses às vezes contraditórios em jogo. A solução, porém, passa pela ação eficiente do Estado nas lacunas que se abrem com a ausência de informação, da iniciativa institucional para mediar conflitos e da capacitação dos agentes econômicos envolvidos.

As eleições na Feira de Santana    

A condição de eleitor obriga todo cidadão, em alguma medida, a acompanhar o horário eleitoral na televisão para escolher candidatos ou reforçar opções já feitas previamente. Talvez até mesmo para mudar de candidato, uma ou mais vezes, dependendo aí da índole do eleitor. Muitos eleitores não têm qualquer inclinação ideológica ou partidária, escolhendo aquele candidato que pareça mais claro e objetivo na apresentação de propostas e que demonstre maior compreensão dos problemas que afligem o cidadão comum.

Só que, visto sob esse prisma, o horário eleitoral na televisão é muito pouco esclarecedor, salvo em relação às honrosas exceções de praxe, ainda existentes. Na Feira de Santana se vê muito pouco a Feira de Santana nos programas eleitorais. Saneamento deficiente, transporte público precário, trânsito caótico, ausência de segurança pública, saúde e educação precárias são pouco vistos.

O que se vêem são festivas e incontáveis carreatas, punhos ostensivamente erguidos em sinal de vitória e candidatos à prefeitura que se escondem atrás dos seus caciques políticos, afirmando e reafirmando alianças e conchavos. Nada muito animador.

Afinal, quem precisa das muletas políticas de herdeiros de antiqüíssimos projetos de poder não fará nada de inovador. Os problemas continuarão os mesmos e as desculpas esfarrapadas também, recorrendo-se à famosa frase de Sartre, de que “o inferno são os outros”. No caso, os adversários políticos.

Vereança

Entre os postulantes à Câmara Municipal o quadro é ainda pior. São mais de 300 e, pelo que se vê, pouquíssimos têm conhecimento sobre qual o papel do Legislativo Municipal. Basta ao eleitor uma única jornada acompanhando candidatos e propostas para constatar essa situação surreal.

Há quem prometa obra, como se fosse prefeito. Há quem já esteja correndo atrás de maior segurança pública, como se fosse governador. E há quem garanta ter serviços prestados à comunidade, como se o assistencialismo fosse prática das mais virtuosas. Tudo isso por trás de chavões surrados, apelidos exóticos e performances extravagantes.

Podemos interpretar que esse é o ônus de se viver num país livre, com eleições diretas. Resta ao eleitor, então, critério na escolha daqueles que podem dar uma efetiva contribuição à sociedade e relegar o mais, inclusive o inusitado do horário eleitoral, ao folclore político que o bom humor do brasileiro alimenta com muita criatividade.

Sociedade

Os períodos eleitorais, porém, convidam sempre à reflexão. Costuma-se enxergar o político e o postulante à política como habitante de uma sociedade à parte, regida pela selvageria e pela safadeza. E, a partir dessa sociedade, partem para praticar torpezas contra indefesos cidadãos e eleitores.

Essa idéia revela a tendência do brasileiro de se colocar sempre como pobre vítima. Bons ou maus, os políticos são parte da sociedade em que vivemos. Bons ou maus, prefeitos e vereadores são eleitos por nós, eleitores. Bons ou maus, eles aplicam políticas e realizam gestões que refletem idéias e hábitos de quem os elegeu.

O que cabe ao brasileiro é acompanhar mais de perto os vencedores das eleições. Cobrar, exigir gestões modernas, compartilhadas e sintonizadas com as necessidades dos cidadãos. A eleição é o primeiro passo. O processo político é muito mais amplo e, às vezes, árido. Mas exige a participação da sociedade. Não somos pobres vítimas e os políticos não são seres mitificados, intocáveis.    

       

Os candidatos e o compromisso com a participação  

Com relativa assiduidade temos comentado nesse espaço o protagonismo crescente que a sociedade vem desempenhando na formulação, acompanhamento e até execução de políticas públicas no Brasil. Isso é um legado da Constituição de 1988, elaborada sob o fervor da redemocratização e que buscou sacudir a população do torpor e da apatia em que os anos de chumbo da Ditadura Militar a haviam mergulhado. Esse documento legou a participação como instrumento de engajamento social, retirando o poder dos ditadores e coronéis e delegando-o, ainda que apenas em parte, à população.

Com a Constituição Cidadã surgiu a gestão compartilhada entre Estado e Sociedade do Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo. Anos depois veio a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), que busca aproximar pais e Sociedade da relação entre o Estado que fornece o produto educação e o estudante, que o utiliza.

Vivemos o mais longo período de democracia e liberdade do Brasil Republicano. As conquistas apontadas acima são um bem valioso que deve ser exercitado à exaustão. Essas mudanças, ressalte-se, vieram para o Brasil e para outros países da América Latina acostumados aos generais-presidentes e aos aventureiros exímios aplicadores de golpes de Estado.

O passar dos anos e a consolidação das sociedades latino-americanas tem reduzido drasticamente o problema da concentração de poder. Países, estados, províncias e municípios já não precisam tanto de governantes emblemáticos para resolver os problemas de suas localidades, porque as leis são mais respeitadas, as instituições têm se fortalecido e o poder político tem se pulverizado.  

Realidade  

Foram muitas mudanças em poucos anos e essas ainda estão em curso. Vai-se trilhando um caminho para uma maior liberdade, democracia e transparência, mas não se sabe com exatidão qual o percurso. Daí as eventuais trombadas, os desvios temporários de rota e a aparente estagnação frente a determinados obstáculos.

Feira de Santana está diante de uma oportunidade ímpar de lançar-se ao mar da prosperidade, sob o ímpeto dos ventos da democracia e da participação. É que estamos no ano em que se definem os novos governantes locais. Antes de nos debruçarmos sobre a urna eletrônica cabe, portanto, uma pergunta-chave: qual o compromisso dos candidatos à Câmara e à Prefeitura com esses novos tempos?

É fácil apertar mão de ambulante no Feiraguai, abraçar verdureiro no Centro de Abastecimento e afagar filho de mãe desempregada na Queimadinha, ante as câmeras de televisão. Difícil é assumir o compromisso de ouvir essas pessoas, através dos canais legados pela democracia, para formular políticas e gerir a cidade.

 Participação

O Plano Plurianual é um desses canais privilegiados. Através dele, construído no primeiro ano de governo, os governantes estabelecem diretrizes e prioridades, projetando o futuro da cidade num horizonte de quatro anos. O orçamento anual que define onde vai ser gasto cada centavo da prefeitura, não pode contrariar esse documento, que se transforma em lei e é votado pela Câmara.

Assim, se a população participa, sinaliza e direciona para o gestor público onde estão os gargalos e quais devem ser as prioridades, este conta com uma inestimável colaboração para a administração municipal. E não é difícil reunir representantes da sociedade civil nas Baraúnas, no Tomba, no Feira IX ou no Feira VII. Basta um mínimo de sintonia com a democracia e compreender o grau de amadurecimento de nossa sociedade.

Os antigos prefeitos, que decidiam tudo, fiscalizavam obras, empregavam parentes e aderentes, distribuíam benesses para seus correligionários e pouco se voltavam para as demandas da população são hoje execrados. Mas devem ser interpretados no seu devido contexto histórico. Hoje é que não dá para construir carreira política assim.

Para Feira de Santana fica, portanto, uma pergunta no ar: qual o compromisso dos postulantes à prefeitura com a participação popular? Vão governar “com o povo” ou “para o povo”, como o faziam os coronéis de ontem? Uma boa sinalização é que digam, de antemão, se vão consultar a população para a construção do Plano Plurianual 2010-2013.

As buzinas que anunciavam o pão e o leite  

Há muitos anos em Feira de Santana as padarias eram mais raras e a população não cultivava o hábito de ir a esses estabelecimentos comprar o pão. Normalmente, era distribuído por vendedores avulsos, que acomodavam balaios ou engradados plásticos em bicicletas e saíam de porta em porta vendendo o produto. Uma inconfundível buzina, semelhante àquela usada pelo apresentador Chacrinha, anunciava a presença do vendedor.

Às quatro da tarde a quietude das ruas do Sobradinho era quebrada por uma dessas buzinas, tocada por “Chico do Pão”, conforme o apelidaram, um negro alto, magro e barbudo, que sustentava um sorriso quase permanente. A freguesia aparecia à porta e, não raramente, o vendedor sabia de antemão a quantidade e a variedade que cada família consumia.

No Sobradinho também transitavam vendedores de leite, mas esses eram menos carismáticos que “Chico do Pão”. Alguns, talvez para preservar o clima rural, vendiam montados em cavalos mansos, que abanavam os rabos enquanto o cavaleiro transferia o líquido dos pequenos tonéis colocados nos flancos do animal para o vasilhame da freguesia. Passavam sempre pela manhã e alertavam a clientela com buzinas igualmente estridentes.

No início dos anos 1980 o Sobradinho era pouco povoado e os inúmeros terrenos baldios, espalhados pelas raras ruas pavimentadas, asseguravam o silêncio que tornava audíveis as buzinas estridentes e também os pregões dos vendedores ambulantes de pamonha no início da manhã e picolé nas tardes quentes de verão.

Progresso

Com o passar dos anos a urbanização, a prosperidade material, a impessoalidade das relações sociais e os avanços tecnológicos tiraram de cena personagens como “Chico do Pão”. É que o mercado consumidor se expandia e, primeiro, foram necessários os depósitos de pão para, por fim, se atingir o estágio da proliferação de padarias propriamente.

Esses estabelecimentos reúnem maior número de produtos, garantem melhores condições higiênicas e atendem ao perfil do consumidor moderno, cujas relações com o mercado se dão, na maioria das vezes, sob a mais estrita impessoalidade.

Sobre o mercado do leite o impacto foi ainda mais dramático, já que as versões líquidas embaladas em sacos plásticos ou em pó nas latas de alumínio conquistaram os consumidores. Isso para não falar da folclórica suspeita de que o leite misturava-se à água (nem sempre potável) antes de ir para os tonéis.

Atualidade

Estudos científicos e ações de vigilância sanitária mostram que o manuseio e o armazenamento inadequado de produtos como leite e pão trazem riscos à saúde dos consumidores. Uma evidência são as portarias e resoluções ministeriais que regulamentam a comercialização de alimentos. Pode se considerar, portanto, que houve grandes avanços nos últimos vinte anos.

Mas, como na vida nada pode ser avaliado isoladamente, os pregões, o mercadejar em lombo de cavalo e as buzinas que despertavam a freguesia fazem pensar. Naqueles idos, a vida era mais tranqüila e as pessoas eram mais senhoras do tempo. Ainda se podia ficar à porta de casa, à noite. Ainda se viam os minadouros que os vazios urbanos sustinham, facilitando o milagre da água que brota da terra úmida.

Sensações do gênero pairam numa dimensão lírica que o cálculo econômico é incapaz de materializar. É delas que deriva o saudosismo que move muitos dos mais velhos. Mais ricos em termos de acúmulo de experiências e conhecimentos, somos forçados a buscar o equilíbrio no fio tênue entre o progresso material e o conforto e a comodidade de uma existência mais aldeã. 

* André Pomponet é jornalista e economista

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