O livro como peça de arte

             O livro, este instrumento importantíssimo para a educação e a cultura, tem um dia que lhe é dedicado. Quem o vê à venda em livrarias pode não avaliar sua origem e mudanças até chegar à forma atual. E há as formas futuras como os livros computadorizados e vendidos pela internet.

            Mesmo antes de Gutenberg inventar a Imprensa, aproveitando os tipos móveis de madeira e o papel dos chineses, havia o destaque para os ilustradores nos livros manuscritos. O papel foi introduzido no Ocidente pelos árabes que adquiriram a fórmula dos chineses. Foi o período em que muito proliferam as iluminuras. Elas eram desenhos artesanais e exclusivos que tinham a finalidade de ilustrar os textos manuscritos dos escribas ou copistas. O livro na Antiguidade, na Idade Média e na Renascença era um objeto de luxo, verdadeira jóia, apresentando encadernações bordadas ou trabalhadas em ouro, metais nobres e pedras preciosas. Só acessível a reis e sacerdotes, até então, detentores da cultura.

            O povo tinha os seus trovadores que lhe davam notícias e lições oralmente, acompanhados por um instrumento musical. Geralmente, o alaúde. Com a invenção da tipografia, essas lendas, poemas, romances, contos, casos, fábulas, mitos, recitativos, parlendas, provérbios, enigmas, advinhas, orações, charadas, canções, receitas, máximas, adágios e outras criações puderam ser impressas e vendidas nas feiras livres. Conseqüentemente, publicadas em maior número e adquiridas a preços mais reduzidos.

            Desenvolveu-se então a arte da xilogravura para a ilustração, tornando os impressos mais atraentes, concorrendo no espaço especial dos desenhos e pinturas das iluminuras.

            A proliferação das tipografias e seu efeito de popularização do livro geraram o fenômeno da literatura de cordel, uma cultura de raízes tradicionais, consumida por gentes que não pertencia aos grandes salões da burguesia ascendente.

            Uma oficina tipográfica tinha ainda muito da corporação medieval. Era como se fosse uma família, cujo chefe era o mestre responsável por tudo e que detinha a palavra final. Em torno dele, trabalhavam os filhos, afilhados, discípulos e até a mulher. Esse costume é praticamente transplantado para o Brasil, vários séculos posteriores à invenção da oficina tipográfica. Principalmente para o Nordeste decadente, após a mudança da capital colonial de Salvador para o Rio de Janeiro, quando começaram a surgir as primeiras tipografias por aqui.

            Como cultura européia era um monopólio dos sacerdotes católicos na Idade Média, detendo as bibliotecas e escolas, ela foi trazida para a América entre as bíblias e missais dos jesuítas e religiosos catequizadores. Aqui, formaram indígenas iniciados em escultura de imagens e, depois, trouxeram as primeiras tipografias e universidades.

            A poesia, entretanto, também veio no bojo das violas e dos adufes para se juntar ao ventre das índias descobertas. E, depois, às carapinhas africanas. Já cantava as sinhás brancas e as mouras de olhos e cabelos pretos. As inspirações se fundiram na nova terra. E os poemas puderam ser ilustrados a partir da tipografia.

            Muitos afirmam que a Civilização começou na China. Mesmo quem contrarie essa premissa acorda que o primeiro livro impresso é o Sutra Diamante, em 868d.C. O livro é tabular, isto é, foi feito por impressão xilográfica, usando tábuas ou pranchas gravadas. Traz na capa uma imagem de Buda falando a um discípulo. O material utilizado é o papel de qualidade.

 

Franklin Maxado

Jornalista, autor do livro “Cordel, Xilogravura e Ilustrações, presidente da AFL – Academia Feirense de Letras, e professor colaborador do Museu Casa do Sertão, da UEFS

 

23 DE ABRIL – DIA MUNDIAL DO LIVRO

 

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