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Amor
e descuido Cada
vez mais os amores parecem finitos, as menores mágoas invencíveis, e o
cartório de separação um balcão de loja qualquer. Ao final, todos,
saem queixando-se do tempo perdido, como se, no caso, apenas a ausência
do fim, justificasse o meio. E, durante, nada tivesse valido e a história
pudesse ser torcida e escorrida na pia como um pano qualquer. De
modo geral, é quase impossível sair-se impune, de uma longa relação. O
rosário de queixas lata os divãs de analistas, os ouvidos amigos e as
mesas dos bares, geralmente alegando um grande engano de amor. Não creio
em engano de amor. O que há são leituras imprecisas, códigos ignorados,
a pressa advinda da facilidade da substituição e corpos que, cada vez
menos, ficam marcados pela pluralidade "dos lábios ou mãos
carinhosas" e da imprecisão de limites entre amor e paixão, se é
que há limites. Aparentemente
a paixão é convulsa, temporária, esfomeada, e mascara seus limites por
ser sujeita ao deslumbramento das descobertas, da volúpia, do percorrer
das veredas da posse. Ela inebria, se faz verdade, até certo ponto, mas
sua linguagem turva o sentido do real ou, se preferirmos dizer de outro
modo: das ações de longo prazo. Já
o amor é composto de sílabas límpidas. Lúcido, claro. O amor não
ilude. Tem bula e ritual. Nós, os amantes, é que escolhemos não
perceber o não-amor - ou o não-amor bastante; o amor de circunstâncias,
em desequilíbrio entre os parceiros. E, assim, subjugamos o orgulho aos
nossos interesses, desculpamos as desatenções, os gestos de desamor e
descuido, e até, às vezes, as repartições do corpo, as palavras sem
alma, pela permanência do objeto amado. O amor, entretanto, não conjuga
seu santo nome em vão. Por
nossa ambição de quem amamos, perdoamos a ausência de flores e dos
exercícios diários de sedução e reconquista, esses deliciosos minuetos
de carinho, às vezes desvalorizados, quando ofertados, mas tão doloridos
quando não obtidos. Porque o amor, este que faz do parceiro a redenção
de nosso imaginário, está além da perfeição da cama, da diversão das
danças. Ele é a cumplicidade das metáforas, a ausência do moinho das
mentiras, da cobiça do sexo serial, do veneno das desconfianças, da
banalização da entrega, seja possível ou não, eterno ou passageiro. Amar
é equilibrar-se nas delicadezas de uma corda de violino e não tecer
vinganças como um prato frio. E dar significado e significância, conteúdo
e reza, a todos os lugares comuns: atenção, proteção, zelo. E, se possível,
deixar um vinho na adega, para emergências insuperáveis. É ser bastante
e farto. Saciar e conter. É escolher a escolha do outro como a sua própria,
ou pelo menos olhar a do parceiro ao lado das suas, e dar o troco do
recebido como quem faz escambo. Amar,
mais que cio de fera, é elogio e admiração. Porque o amor se percebe
nas sutilezas, quando acontece, ou deixa de existir. Os arrodeios do
reconhecimento são nossas proteções das dores e do enfrentamento da
nossa própria falha em se fazer amar, sem opções. Cerramos as pálpebras
por medo do degredo do que, de nosso, só pode ser encontrado na alma, ou
memória, do parceiro. Mas a verdade é que, nas entrelinhas, sempre
sabemos quem nos ama, pois todos os que amam padecem da mesma sina de
migrar, diluir-se no outro. Tornamos-nos seu excesso. Ao
nos iludirmos, fazemo-Io achando que, de tanto, podemos amar por dois... César
Oliveira |
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