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Ata
de (des)amor Era
uma vez o amor (De repente, Lúcio achou Lorena em plena rua: era outono,
e um sol tímido se insinuava. Os carros rosnavam alheios, somente atentos
às cores das sinaleiras. Ela ia simplesmente passando; e ele sentiu o hálito
súbito de um desejo. Em sorrisos e gestos, seus olhos ataram-se no mesmo
horizonte, de um para o outro. Em volta, os edifícios e as vidraças
apenas os espiavam cúmplices. Entreolharam-se;
trocavam sinais sutis, involuntários. Se ele se calasse e seguisse
adiante, teria sido o amor à última vista. Mas Lúcio sabia viver
entreatos de urgência. Acenou, e ela já sofreava o passo; ele quis saber
onde ficava uma rua qualquer. Era esse o truque, sequer pensado: foi o
impulso. Sorriram-se, em meio aos ruídos do trânsito; e já dialogavam. Lorena:
a brisa afagava-lhe os cabelos, tornando-a ainda mais doce e enigmática
em seu talhe baudelaireano. Discreta, entreabertos lábios. Uma mulher amável,
nos dois sentidos. Sim, Lúcio, com um brilho lúcido nos olhos, se
deslumbrava. Ele lembrou dos versos de Vinicius - "Meu amor, que
olhos os teus!" Onde
ficava aquela rua? Lorena ensinou-lhe o caminho e seguiram juntos. Ele
propôs que tomassem um café. E logo tomaram o primeiro de quantos cafés:
quentes, deliciosos, inumeráveis. Daí
em diante, aprenderam-se no mesmo sentimento. Aos poucos, gota a gota,
eles se misturavam; eram águas de rio e mar. E logo enamorados. Até que
Lúcio teve um estalo. Lorena hesitou, mas sentiu em si o prazer
antecipado do maior convívio; os dias e as noites somados, repartidos,
convolados. Aceitou. Um dia eles se juraram! persignados, em gestos e papéis,
sob os aplausos. O rio seguiu viagem. Depois, outros arremates, em cenas e palavras, doaram-se ao único sorrir. Quem tem olhos pode também chorar. Eram-se em atos de viver, em campo de vasta planície, o difícil de cultivar. Sol e chuva, verões invernos; enchentes e estiagens. E seca. Lúcio
e Lorena, entre rosas e cactos, primeiro se acharam para as artes de ser
feliz. Depois se extraviaram nas viagens dos ventos. Passo a passo,
desentenderam-se. Até que atingiram os excessos. Assim, desteciam os
sorrisos compartilhados; e então choraram juntos a mútua e irremediável
dor.) e eles se separaram. Aleilton
Fonseca
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