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André Pomponet

Economia popular se ajusta à crise em Feira

17/10/2017

Ano que vem, como todo mundo sabe, haverá eleições gerais. Alguns pré-candidatos estão por aí, ciscando, tentando firmar-se junto aos partidos e – sobretudo – ao eleitorado. Aquela banda encalistrada, mais afinada com o controverso governo federal de plantão, alardeia o fim da recessão e a retomada do crescimento econômico como trunfos para 2018; os governistas de ontem – particularmente os petistas – rememoram os “bons tempos” da era Lula e apostam na continuidade do caos, confiantes no retorno triunfal do lulismo.

Ao largo de toda essa trama, o brasileiro médio segue padecendo. Afinal, as residuais oscilações dos indicadores econômicos são demasiado fugazes para quem segue aí, desempregado, desdobrando-se no biscate, tentando arranjar algum dinheiro para ir sobrevivendo nesse contexto de retração feroz.

Onipresentes na televisão, os quiproquós dos engravatados do Planalto Central revelam pouco sobre a realidade do País. Melhor circular pelas cidades, esquadrinhar praças, marquises e viadutos, aventurar-se pelas vielas íngremes das favelas, varejar subúrbios longínquos, inspecionar os vilarejos humildes dos camponeses esquecidos. Só assim para firmar opinião abalizada sobre o temerário Brasil dos dias atuais.

Alvejada em cheio pela crise, a Feira de Santana também têm seus cenários dramáticos, espaços que traduzem a aspereza dos dias que se arrastam sob a crise interminável. Alçada à condição de metrópole, a cidade inclusive exibe inúmeros matizes que o observador pode conectar ou, simplesmente, selecionar aquele que lhe pareça mais pitoresco, mais emblemático.

Comércio popular

Durante o delirante – e efêmero – ciclo de prosperidade, os bairros populares ficaram prenhes de estabelecimentos que ofereciam ampla variedade de produtos: açougues, padarias, mercadinhos, armarinhos, salões de beleza, lanchonetes, sorveterias, pizzarias, restaurantes – esses dois últimos beneficiados pelo recurso mais farto que favorecia inéditas incursões para refeições fora de casa –, além de lojas de materiais de construção que atendiam àqueles que reformavam ou retocavam a casa.

Espaços comerciais nas vias principais – sobretudo naquelas onde circulam ônibus – passaram a ser intensamente disputados. Os alugueis alcançaram as nuvens e, apesar da elevada mortalidade dos microempreendimentos, muitos se arrojavam, tentando firmar-se, apesar dos fracassos circunstanciais e da questionável demanda por determinados produtos.

A crise – basta circular pela cidade para constatar – arruinou muito do comércio de bairro. Sobrevivem mercadinhos, açougues, padarias, bares, mais alguns produtos e serviços que se firmaram. Mas é desolador observar as portas corrediças cerradas, anúncios carcomidos de “vende-se” ou “aluga-se” sinalizando para a ressaca recessiva que se seguiu à embriaguez expansionista.

Mudanças

Muitos perderam terreno no circuito produtivo. Quem aventurou uma lanchonete, hoje produz seus quitutes na cozinha de casa e sai para entregar ou vender; modestas salas de estar converteram-se em salões de beleza; quem assumiu o compromisso do aluguel, agora aventura-se prestando serviços nos domicílios dos clientes potenciais; quem disponibilizava sua mão de obra num pequeno estabelecimento, forçosamente se converteu em ambulante ou camelô.

Lapidar é o papel do automóvel. Emergentes da outrora badalada “classe C” compraram carros usados ou arriscaram-se no financiamento de um novo, ilusoriamente galgando aquele mágico patamar da ascensão social brasileira. Quando a crise recrudesceu, muitos mergulharam no transporte clandestino – o popular “ligeirinho” –, passaram a vender ovos, água sanitária, beiju, pamonha ou acoplaram uma caixa de som ao teto para divulgar propagandas pelas ruas. Tudo para seguir pagando as prestações.

Multiplicaram-se também anúncios nos muros e nas portas: costureiras, manicures, pedreiros, encanadores, serralheiros, professores de reforço escolar, além da profusão de atividades vinculadas à informática e aos serviços gráficos. Brasileiros – e feirenses – abalroados pela crise aguda, que fincou raízes e resiste, interminável.

Em suma, o salseiro político que agita a névoa seca de Brasília é comédia perto do drama que se desenrola nas desoladas planícies brasileiras.

André Pomponet